Você X Tio Sam
A maior crise financeira mundial desde 1945, que começou nos EUA, já está desembarcando no Brasil. Veja como ela pode afetar a sua vida.
Depois de vasculhar as revendas de Joinville em busca de um automóvel ideal, Giovana Fruett e Vanderlei Soldera decidiram fechar negócio na semana passada. O casal decidiu comprar um Siena zero em 60 vezes. "A prestação que eu pagaria por um carro usado de R$ 22 mil, mais os juros, é quase a mesma de um carro novo. E a gente tem a vantagem de levar um automóvel que não teve nenhum dono", diz Soldera. A compra, que poderia ter aguardado mais algumas semanas, acabou antecipada em função da crise. O casal teme que o crédito fique mais restrito daqui para adiante. "Agilizamos a compra. A gente acha que vai ficar mais difícil conseguir financiamento por causa da crise, e os juros devem subir ainda mais", disse Soldera.
OS FINANCIAMENTOS
Devo parcelar as minhas compras em muitas vezes?
Evite, principalmente se você não estiver precisando urgentemente do produto. É mais barato juntar o dinheiro, colocar em uma aplicação segura, como a caderneta de poupança, e depois pagar à vista. Você ganha duas vezes: com a remuneração da aplicação financeira e com o desconto por pagar à vista. No caso de carros e imóveis, pense bem antes da compra (veja as perguntas a seguir).
Compro um carro agora, ou deixo mais para a frente?
Uns acham melhor comprar logo, outrros sugerem esperar uma oportunidade melhor. Os bancos das montadoras estão aumentando as taxas de juro. A Fiat corrigiu de 1,40% ao mês para 1,63%. A Peugeot e a Citröen mudaram os juros de 1,3% para 1,6%. Andrew Storfer, diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) diz que é complicado assumir uma dívida a longo prazo, sem ter certeza sobre como o bolso vai estar lá na frente.O ideal é procurar com calma e não tomar nenhuma decisão com base na emoção. No final do ano, as revendas de carro constumam oferecer promoções, de olho no 13º salário.
Como fica a compra da casa própria? As prestações vão aumentar?
Para quem já assinou o contrato de financiamento, não deve haver mudança no prazo e no valor das prestações. Quem planeja comprar pode se preparar. Os bancos podem encurtar os prazos de financiamento, que atualmente são de 58 meses, em média, segundo o Banco Central (BC). Os juros também devem subir. Mas pode haver uma compensação nos próximos meses, diz Andrew Storfer, da Anefac. É que parte das construtoras pode não estar em boa situação financeira. "O preço dos imóveis poderá cair", diz. A regra é pesquisar muito.
Como vão ficar os juros do cartão de crédito, do cheque especial e das financeiras?
Se deixar a conta corrente no vermelho já está custando mais caro, nos próximos meses deve ficar mais ainda, alerta Andrew Storfer, da Anefac. Aos poucos, as taxas de juro vêm aumentando. Segundo a Fundação Procon-SP, a taxa média do cheque especial nos principais bancos passou de 8,97% ao mês, em agosto, para 9,02%, em setembro. E deve continuar subindo nos próximos meses. O mesmo se aplica ao cartão de crédito e aos empréstimos feitos nas financeiras. Os bancos estão ficando mais cautelosos na hora de liberar dinheiro.
SONHO MAIS CARO
Com a viagem marcada e as passagens compradas, o estudante Guilherme de Souza Castro, 22 anos, embarca para Nova York (EUA) na próxima sexta-feira com a certeza de que o curso de inglês que vai fazer vai sair mais caro que o planejado. A idéia é passar os próximos quatro meses se preparando para fazer a prova que garante um certificado de conhecimento em inglês e tentar ser aceito em uma universidade onde pretende cursar administração. Ele está de olho da alta do dólar. "Se eu for aceito na universidade, o curso e o custo de vida ficarão muito altos, neste caso terei que repensar se compensa ficar lá", explica.
AS VIAGENS
Como ficam os preços das passagens de avião?
Se o petróleo ficar mais barato, a tendência é que os preços das passagens nacionais fiquem mais baratas nos próximos meses. O combustível é o principal custo que pesa nos preços, diz Alcides Leite, da Trevisan. Mesmo nas internacionais não deve haver muita mudança, porque a valorização do dólar seria compensada com a queda nos preços. "Não vai afetar", diz o presidente da seccional catarinense da Associação Brasileira de Viagens (Abav-SC), Eduardo Loch.
É hora de viajar para o exterior? Compensa mais viajar para o Brasil e/ou América Latina?
Adie um pouco as férias, se for possível. Os pacotes para fora do País são cotados em dólar e por isso não é a hora de comprar, principalmente se a idéia é financiá-los, diz Jurandir Sell Macedo, da UFSC. O economista Alcides Leite, da Trevisan, acredita que nos próximos meses a cotação do dólar tende a se estabilizar. Para quem não quer adiar os planos de viajar, mas não quer pagar mais, a alternativa é viajar pelo Brasil
Uso cartão de crédito no exterior ou compro dólares ou euros?
"Cartão de crédito continua sendo a melhor opção para quem pretende pagar as contas de viagens ao exterior", afirma Macedo, da UFSC. Ele diz que comprar moeda estrangeira pode ser arriscado, por causa do constante sobe-e-desce das cotações. O único alerta, segundo Alcides Leite, da consultoria Trevisan, é não estourar o limite do cartão e pagar integralmente na data de vencimento da fatura, já que as taxas devem ficar mais caras. Sempre é bom viajar com um pouco de moeda pois não é em todo lugar que se aceita cartão de crédito.
As férias de verão em Santa Catarina vão ser prejudicadas?
O turismo catarinense não deve sentir com muita força os efeitos da crise. "A perda de turistas deverá ser mínima", acredita Eduardo Loch, da Abav de Santa Catarina. As alterações de preço devem acontecer em produtos específicos, como alimentos e bebidas importadas.
O BOLSO
Os preços nos supermercados vão aumentar por causa da alta no dólar?
No curto prazo, e principalmente para o Natal, os produtos importados devem aumentar de preço, seguindo o mesmo ritmo da valorização do dólar. "Vinhos importados, azeite de oliva, salmão e frutas secas, como nozes, devem ficar mais caras", diz Jurandir Sell Macedo, professor da UFSC. Mas no médio prazo, com a redução no consumo nos países desenvolvidos, o preço dos alimentos pode até ficar nos níveis atuais, diz o economista Alcides Leite, da consultoria Trevisan. Isso poderia beneficiar derivados de produtos que são negociados em dólar, como a soja, o milho e o trigo
Importados e eletrodomésticos, compro agora ou deixo para depois?
Se o consumidor tem o dinheiro para a compra à vista, comprar o produto agora é uma boa opção. O presidente da Positivo Informática - a maior fabricante de computadores do País - , Hélio Rotenberg, diz que o estoque deve acabar nos próximos dias e os novos produtos virão mais caros. "O fundamental é evitar o parcelamento", recomenda Jurandir Sell Macedo, da UFSC. Os juros estão aumentando. Segundo a Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), as lojas cobravam 5,93% em dezembro. Em agosto, a taxa passou para 6,17%. Os preços dos eletrônicos podem aumentar nas próximas semanas, já que parte dos componentes é importada.
Como vão ficar os reajustes salariais daqui para a frente?
Daniel dos Passos técnico do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socio-econômicos em Santa Catarina (Dieese-SC), diz que conseguir um reajuste salarial com ganhos acima da inflação vai ficar mais complicado nos próximos meses. "O momento poderá implicar resistência nas negociações para aumentar benefícios, direitos ou o piso salarial." Com o desaquecimento da economia, as empresas poderão vender menos. Ganhos salariais de até 2% acima da inflação, como aconteceu com a maioria dos trabalhadores catarinenses, podem ser menos freqüentes.
É um bom momento para trocar de emprego?
Para quem pensa em trocar de emprego é preciso ficar atento. A criação de novas oportunidades de trabalho vai continuar aumentando, porém em um ritmo bem menor. O recorde de 103 mil novos postos de trabalho com carteira assinada em 12 meses, verificado em setembro, vai ser mais difícil de ser repetido em Santa Catarina. "O crescimento econômico vai diminuir, por isso o volume de geração de empregos deverá ser menor", explica o economista Alcides Leite. "Os lucros das empresas devem diminuir", diz Passos, do Dieese-SC.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/anoticia/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=
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