Economia real pressiona

A crise dos mercados interbancários globais — que ontem tomou o rumo do Velho Continente, arrastando, novamente a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) para o abismo — ainda vai tirar o sono e as reservas do investidor brasileiro. Pelo menos essa é a expectativa dos especialistas. ´Estamos contabilizando a pobreza´, resume o consultor financeiro José Maria Porto Sobrinho. ´Ontem, na Bolsa, se perdeu 14% do capital investido. É muita volatilidade e a chance de a Bolsa encerrar o ano negativa aumentou muito´, emendou Pedro Vartanian, consultor do Núcleo de Negócios Internacionais da Trevisan Consultoria.

Vartanian explica que o problema, agora, é a economia real que pressiona os índices do mercado de capitais em todo o planeta. ´A crise tem dois movimentos: o financeiro, dos bancos, e o da economia real: produção, emprego e outros indicadores. Na sexta-feira, a aprovação do pacote de ajuda aos bancos norte-americanos deveria ter impulsionado as bolsas, mas houve um dado do mercado de trabalho ruim. Isso mostra que a parte real está sendo afetada pela crise, por isso as bolsas apresentaram esse comportamento´, fala.

Bola cantada

Na Europa, o modesto crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos principais países, aliado à quebradeira dos bancos, assusta. ´Eu já estava cantando esta bola: a gente está vendo que não tem como melhorar porque a crise tomou o rumo da Europa.

Vai precisar de um tempo para retomar a credibilidade nas instituições financeiras´, acrescenta Porto. ´A França apurou dois semestres de queda no PIB e isso tem tirado o ânimo´, completa o consultor da Trevisan. Em contrapartida, no Brasil, os dados da economia real estão favoráveis. ´Há crescimento econômico, emprego formal em alta, varejo com recuperação de vendas e elevação das aquisições de máquinas e equipamentos´, comenta Vartanian. O problema é que a economia do Tio Sam vai precisar de um tempo para reagir ao pacote de benesses de George W. Bush. ´Há incerteza se ele trará os resultados desejados que é evitar quebra do mercado financeiro e a recessão´, completa o especialista.

Para José Maria, indubitavelmente, as empresas americanas vão começar a apresentar resultados abaixo do esperado, acarretando num lucro menor. ´As empresas tendem a diminuir seus custos e, infelizmente, a primeira coisa que se faz é demissão de funcionários: começa um círculo vicioso, pressionando mais ainda o índice de desemprego na economia americana e, consequentemente, um menor consumo´. Boa parte das famílias norte-americanas — cerca de 50% — tem algum tipo de investimento no mercado de ações. ´Isso significa dizer que, se precisarem de recursos no curto prazo, vão ter que vender suas ações com preço extremamente depreciado, o que contribui para a queda das bolsas´, pontua José Maria Porto.

O consultor cearense também mostra preocupação com o fato de as empresas multinacionais terem recursos aplicados nos bancos que quebraram. ´Será que as instituições que sucumbiram não levaram junto uma boa parcela das disponibilidades financeiras destas empresas?

A própria Sadia, no Brasil, tinha recursos investidos no Lehman Brothers, natural por se tratar de uma empresa com transações internacionais. Imagine as companhias americanas e européias, com relacionamento com bancos americanos bem mais ativo que empresas brasileiras?´, questiona.

SAMIRA DE CASTRO
Repórter

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=578598

<< VOLTAR <<

 
 
 
Consultoria