Tempo ruim na transmissão

Ministro Lobão diz que conjunção de fatores climáticos anormais causou apagão

Gustavo Paul, Mônica Tavares e Adauri Antunes Barbosa BRASÍLIA, SÃO PAULO e RIO

Chuvas, raios e ventos foram as causas do apagão que deixou às escuras — em alguns casos por mais de quatro horas, entre a noite de terça-feira e a madrugada de ontem — 18 estados brasileiros, afetou 45% do consumo de energia do país e colocou em ponto morto, pela primeira vez em 25 anos, todas as turbinas da maior hidrelétrica do mundo, Itaipu. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, alegou uma conjunção desses fatores, em escala acima do normal, como responsável pelo curto circuito em três linhas de transmissão que ligam Itaipu, no Paraná, à subestação de Itaberá, em São Paulo.

Esse evento desencadeou uma reação em cadeia no sistema elétrico, que desligou 15 outras linhas de transmissão.

Lobão participou de uma reunião com a cúpula do setor elétrico ontem para buscar as explicações para o maior blecaute brasileiro nos últimos dez anos. Para os presentes na reunião, o incidente poderia ter sido pior, atingindo maiores proporções e apagando todo o país. É o que diz o diretor de Operação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Luiz Eduardo Barata, que admitiu não haver garantias de que o problema não possa ocorrer de novo. Segundo especialistas, o sistema não é invulnerável.

— É pouco provável, já que esse tipo de evento não ocorre comumente, mas não há como dizer que isso não irá se repetir — disse Barata.

Segundo Lobão, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou que houve uma concentração muito grande de efeitos meteorológicos na região naquele momento: — O Brasil é o país onde há maior concentração destes fenômenos.

Ele insistiu que o sistema brasileiro é robusto e que não haverá novos problemas.

Armado com uma tabela de outros apagões ocorridos no mundo, o ministro disse que o caso brasileiro não é fato um isolado, e que o sistema nacional se destacou pela agilidade. Ele citou apagões ocorridos em 2003 na Costa Leste dos EUA e no Canadá, quando a energia só foi recomposta em quatro dias, e na Itália, quando as luzes se apagaram por 24 horas: — O sistema brasileiro é muito bom, não é frágil e conseguiu se recompor rapidamente.

O governo descartou outras possibilidades para o apagão, particularmente um ataque de hackers.

— Estamos dizendo exatamente o que aconteceu — afirmou Lobão.

O desligamento de três linhas de transmissão de Itaipu desencadearam problemas em cascata. Para evitar que o problema se espraiasse e equipamentos fossem danificados em todo o país, o sistema elétrico desligou automaticamente as outras duas linhas de transmissão de Itaipu. Depois, foram caindo as linhas que ligam a subestação de Tijuco Preto (SP) à capital paulista e, de lá, as linhas para o Rio e o Espírito Santo. No mesmo instante, as usinas hidrelétricas paulistas foram apagadas. As últimas a sofrerem consequências foram as usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2.

Esse efeito dominó foi a razão para que o Rio de Janeiro fosse o estado mais afetado pelo apagão.

— O Rio está na ponta do sistema — disse Barata, do ONS.

Ontem à noite, a operação das duas usinas estava voltando ao normal. Segundo o ONS também estão ligadas as termelétricas Termorio, Norte Fluminense e Leonel Brizola. As três foram desligadas ontem após a hora de pico.

Essas térmicas não foram acionadas no momento da crise, pois o governo achou que o problema teria solução rápida. Uma térmica leva cerca de quatro horas para ser ligada. O blecaute no Sistema Interligado Nacional teve início às 22h13m e causou o apagão total em quatro estados e parcial em outros 14. Ao todo, deixaram de ser gerados 28,8 mil MW de energia, ou 45% da energia demandada na hora.

Inpe: possibilidade de raio é remota

As panes ocorreram no sistema que liga a cidade de Ivaiporã, no centro do Paraná, a Itaberá, no sul de São Paulo, e em uma subestação que liga a Subestação de Itaberá a Subestação de Tijuco Preto, em São Paulo. Sem o funcionamento das cinco linhas de transmissão de Itaipu, as 18 turbinas da usina deixaram de gerar 12 mil MW.

A energia foi totalmente restabelecida uma hora após o início do blecaute, exceto nos estados do Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio e São Paulo, o que ocorreu só ao longo da madrugada. Sem estatísticas e dados detalhados sobre o apagão, Lobão não perdeu a oportunidade de criticar o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, salientando que o apagão de ontem é menor do que o ocorrido no governo passado: — Em 1999, desligou-se 70% da energia. Em 2002, foi 60% e agora apenas 40%. Nenhum governo fez tanto em investimento como o atual.

Apontada pelo Ministério das MInas e Energia como o epicentro do apagão elétrico, a pequena cidade de Itaberá (a 320 quilômetros ao Sul de São Paulo), permaneceu iluminada na terça-feira à noite, no momento do blecaute, segundo seu prefeito, Walter Sergio de Souza Almeida (DEM): — Eu nem sabia que o ocorrido tinha a ver com Itaberá. Aqui choveu à noite, mas não faltou luz e só aconteceu uma pequena falha.

Análise de técnicos do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), sugere que são mínimas as possibilidades de um raio ter sido a causa do apagão.

“Embora houvesse uma tempestade na região próxima a Itaberá, com atividade de descargas no horário do apagão, as descargas mais próximas do sistema elétrico estavam a cerca de 30 quilômetros da subestação de Itaberá e a cerca de 10 quilômetros de uma das linhas de Furnas de 750 kV e cerca de 2 quilômetros de uma das linhas de 600 kV, que saem de Itaipu em direção a São Paulo”, informa nota do Inpe.

Segundo o coordenador do Elat, Osmar Pinto Junior, o apagão foi o segundo maior do país.

— Tudo indica que houve uma pane elétrica do sistema — disse. — Não significa que ele seja obsoleto ou que precise urgentemente de manutenção.

Para especialistas, apagão mostrou que sistema elétrico não é infalível

Autor(es): Gustavo Paul, Eliane Oliveira, Ramona Ordoñez e Danielle Nogueira

BRASÍLIA e RIO. O setor elétrico brasileiro é considerado seguro, mas não é invulnerável. Essa é a opinião de analistas para os quais, apesar dos avanços na segurança do sistema desde o grande apagão de março de 1999, não há como garantir uma operação totalmente sem riscos.

Nos últimos dez anos, novas linhas de transmissão foram construídas, medidas de segurança foram idealizadas e um sistema de “ilhamento” foi concebido.

Por esse sistema, se uma linha cai, o restante não deveria ser atingido, fechando-se em si e garantido o abastecimento de áreas específicas.

Entre as medidas de segurança adotadas está a implantação de linhas de transmissão de reserva nas existentes, para serem acionadas em caso de falhas. O problema é que na noite da última terça-feira nada disso funcionou.

Em um movimento inédito, toda as linhas de Itaipu (inclusive a de reserva) entraram em colapso, e o sistema de “ilhamento” não funcionou completamente.

— A possibilidade de as cinco linhas de Itaipu caírem ao mesmo tempo é tão rara quanto alguém ganhar ao mesmo tempo na mega-sena e na loteria da Califórnia — disse o consultor Eduardo Bernini, ex-presidente da distribuidora Eletropaulo.

Sistema de ‘ilhamento’ já foi usado em réveillon Segundo um técnico do Operador Nacional do Sistema (ONS), o Rio recebe energia de Itaipu principalmente por duas linhas de transmissão de 500 Kilovolts (Kv). Quando essa energia deixou de ser transmitida, o sistema de segurança das usinas nucleares de Angra 1 e 2 desligaram as duas centrais, que estavam operando com cerca de 80% de capacidade. O técnico acredita que a falta repentina de um volume tão grande de energia fez com que o sistema de segurança que poderia “ilhar” o Estado do Rio, não funcionasse.

— Houve um problema em uma das linhas de corrente alternada de Itaipu, derrubando as demais. O sistema de segurança que deveria ter ilhado o problema não funcionou. Mas garanto que o sistema elétrico nacional é robusto, e o ocorrido não foi por falta de investimentos — disse o presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz Lopes.

Para o ex-secretário estadual de Energia do Rio e atual presidente da Cedae, Wagner Victer, o “ilhamento” seria uma alternativa viável porque o Estado do Rio produz mais energia do que consome. Assim, a energia que deixaria de ser recebida de Itaipu seria compensada pela energia das usinas nucleares de Angra 1 e 2, bem como a das cinco térmicas existentes no estado.

— Em 2001, 60% do abastecimento energético do Rio dependia de Itaipu. Hoje, o Rio tem um excedente de 20% em sua geração de energia — disse Victer.

Segundo ele, esse mecanismo foi acionado em sua gestão (1999-2006) durante festas de réveillon e deveria estar em pleno funcionamento para a Copa de 2014 e para as Olimpíadas de 2016, para evitar problemas.

Falta de fiscalização deixa setor vulnerável, diz analista O sistema de abastecimento da região central de São Paulo (incluindo metrô e principais hospitais) também não foi acionado a tempo.

— O ilhamento existe no conceito e na prática, mas simplesmente não funcionou. É preciso identificar as causas do problema, e não tratá-lo como uma marolinha — disse Bernini.

Para o governo, o mecanismo de ilhamento não foi considerado um problema. Segundo Luiz Eduardo Barata, diretor de Operação do ONS, as ilhas devem A EQUIPE do Ministério de Minas e Energia, liderada por Lobão, explica as razões do blecaute: “descarga elétrica” Givaldo Barbosa funcionar depois de ocorrido o blecaute. Segundo ele, isso ocorreu.

Já as usinas de Angra demoram até 24 horas para serem religadas, como qualquer unidade nuclear, defendeu: — Houve um problema sério, mas o sistema funcionou corretamente.

Os sistemas do Norte, Nordeste e Sul se desligaram.

Ainda assim, os analistas recomendam aperfeiçoar o setor.

Para Marcos Alves,gerente técnico da Treetech Sistemas Digitais, empresa especializada em linhas de transmissão, o “ilhamento” tem de ser aperfeiçoado, bem como a modernização do sistema de fiscalização dos equipamentos.

Já o consultor de energia renovável e sustentabilidade da Trevisan, Antonio Carlos Porto Araujo, disse que o setor energético brasileiro é um dos mais seguros do mundo. Mas reconhece que há riscos em um sistema interligado com mais de 80 mil quilômetros de extensão: — A necessidade de transferência de grande bloco de energia por meio de interligação de sistemas regionais podem causar panes. O sistema é sujeito a ventania, raios, sabotagem, atentado, greve e falha humana.

O especialistas em energia Helder Queiroz, do Instituto de Economia da UFRJ, lembra que, no caso de um país de dimensões continentais como o Brasil, as longas linhas de transmissão ainda são a melhor opção.

— Pequenas linhas não seriam viáveis. Seria como se cada apartamento de um prédio tivesse sua própria caixa d´ água para usá-la apenas quando houvesse falta de água.

O presidente do Associação dos Operadores do Estado de São Paulo, Washington Maradona, alerta que a fiscalização do setor é falha. Segundo ele, as empresas privadas reduziram o efetivo de pessoal em quase 60% desde os anos 90 e a fiscalização feita pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é insuficiente, deixando o setor vulnerável Um ex-dirigente do sistema alerta que, para aperfeiçoar a segurança, a sociedade brasileira terá de pagar mais caro pela energia, para compensar o custo desses investimentos.


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