Pai fundador, filho inovador

No mundo do futebol, costuma-se dizer que em time que está ganhando não se mexe. O mesmo, no entanto, não se repete no meio corporativo, que vive em ininterrupta ebulição. Os avanços tecnológicos, somados às inovações nas ferramentas de gestão, forçam o empresariado a atualizações constantes. Em empresas familiares, em que a figura de um líder proeminente, o fundador, se destaca, os vetores das transformações são, muitas vezes, a segunda geração das famílias controladoras. Nesse processo, as resistências internas são inevitáveis e só podem ser vencidas através de projetos bem feitos e executados, que legitimam a atuação dos herdeiros nas organizações.

Paulo Jacobsen, consultor e ex-professor de cursos de pós-graduação em Administração em renomadas instituições, enfatiza que a passagem de bastão é um caminho cheio de percalços, o que faz com que empresas familiares administradas por sucessivas gerações se tornem cada vez mais raras. "A mortalidade das empresas é muito grande atualmente. Nas organizações familiares, a falta de preparação do sucessor, associada a brigas internas, costuma resultar em má gestão", diz. "Em muitos destes casos, o pai fundador inconscientemente atropela as decisões do filho sucessor, deslegitimando-o", reforça Edison Cunha, diretor de Operações da consultoria Trevisan.

Casos de sucesso, em que os sucessores assumem a companhia e a fortalecem, como da Gerdau, Lojas Americanas e Ceratti, entre outros, no entanto, mostram que a sobrevivência está na arte de aprender a delegar. "O planejamento da sucessão é fundamental e deve ser seguido à risca. O segredo é saber transmitir o poder aos seus sucessores, deixando-os pouco a pouco com o controle dos negócios", acredita Luis Affonso Romano, presidente do Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização (IBCO).

Empreendedores por natureza, obstinados e instintivos, os fundadores, independentemente do porte que a empresa venha a alcançar futuramente, geralmente carregam consigo a capacidade de adaptação que os conduzem ao sucesso. Não são raros os casos de empresários que constróem um império praticamente do zero. O tempo, no entanto, ou a própria complexidade que os negócios adquirem com o crescimento, torna a paulatina inserção dos filhos na administração a saída encontrada para se perpetuar no comando dos negócios.

Do mesmo jeito em que carregam virtudes fundamentais para o startup dos negócios, os empreendedores/fundadores possuem características que podem atrapalhar a gestão. A principal delas é a centralização, que normalmente redunda em dificuldades para aceitar as novidades do mercado.

"Nas empresas familiares, é muito comum o fundador só sair da administração com seu falecimento. Ao mesmo tempo, é preciso distinguir empreendedor de empresário. Enquanto o primeiro é centralizador até o fim, o segundo planeja sua sucessão. Este trabalho, no entanto, não é fácil. Mesmo as pessoas mais abertas têm dificuldade em aceitar uma novidade e se perguntam: se a administração sempre deu certo de uma maneira, por que mudar?", diz Romano.


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