Os prós e contras para o Brasil
Renata Tranches
As atenções do mundo se voltam para as eleições de 4 de novembro, quando provavelmente todos conhecerão o próximo presidente dos Estados Unidos. Todos querem saber o que muda com a troca de líderes da maior potência mundial. Com o Brasil, não é diferente. Naquela nação, há 1,5 milhão de brasileiros vivendo ilegalmente. Com os americanos, mantemos relações comerciais e diplomáticas, e, por eles, somos considerados o Estado-líder de maior credibilidade na América Latina. Mas assim como os outros países, a atenção do Brasil se volta para a questão econômica. O POPULAR ouviu especialistas que pontuam as perspectivas em áreas de interesse brasileiro nas relações com os EUA, sob o comando do democrata Barack Obama ou do republicano John McCain. IMIGRAÇÃO
Reforma deve acontecer, mas não de imediato
Os EUA têm hoje cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais. Segundo estimativas do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, cerca de 1,5 milhão dos chamados indocumentados são brasileiros.
A imigração é uma questão importante para os americanos, e também interessa muito aos brasileiros. Michelle Mittelstadt, diretora de Comunicação do Instituto de Política Migratória dos EUA, lembra que durante o debate sobre a reforma da Lei de Imigração no Senado, os dois senadores - Barack Obama e John McCain - posicionaram-se a favor da medida, ainda que ela não tenha sido aprovada.
Para ela, ambos deverão tentar viabilizar a reforma em um possível governo. A proposta gira em torno de três elementos: a legalização dos 12 milhões de ilegais; criação de postos de trabalhos temporários que permitiria ao país receber trabalhadores adicionais do exterior; e o aumento do reforço nas fronteiras para reduzir a entrada de ilegais.
Por pressão dos conservadores, McCain, durante a campanha, passou a falar apenas em fechamento das fronteiras. Mas, segundo Michelle, ele nunca repudiou oferecer legalização ou viabilizar um programa de trabalho no país. “Muitos também acreditam que se ele se eleger voltará, automaticamente, a apoiar a reforma da Lei Imigratória, assim como faria Obama”, diz.
Mas ela reitera que ainda que os democratas consigam maioria na Câmara e no Senado, será difícil lidar com essa questão em um primeiro momento. “O foco está todo na atual crise econômica no mundo e nos Estados Unidos. Essa parece ser a primeira questão a ser resolvida.”
POLÍTICA ENERGÉTICA
Negócios com etanol dependem do Congresso
Para José Goldemberg, físico nuclear, pesquisador da área de energia e ex-secretário da Ciência e Tecnologia e do Meio Ambiente de São Paulo, o resultado das eleições dos Estados Unidos poderá afetar - no setor energético - apenas o problema das importações do etanol do Brasil.
Segundo Goldemberg, que foi também ministro do Meio Ambiente no governo Collor, o candidato democrata Barack Obama é favorável à preservação dos subsídios aos produtores de etanol do milho e à manutenção das barreiras alfandengárias que tornam difícil a penetração do biocombustível brasileiro naquele país.
“McCain (John, candidato republicano) é contra o protecionismo e prometeu remover as barreiras, o que nos favoreceria. De qualquer forma, estas decisões dependem do Congresso americano e a mudança da lei atual só poderia ocorrer em 2010 ou 2011”, afirma.
O Brasil é um grande exportador de biocombustível, mas o protecionismo e os subsídios em outros países têm tornado o produto pouco competitivo lá fora, como ocorre nos Estados Unidos.
O consultor de Energia e Meio Ambiente da Trevisan Consultoria, Antonio Carlos Porto Araújo, lembra que o republicano John McCain tem dito que pretende diminuir essa tarifa progressivamente até zero já nos próximos dois anos.
“Os EUA têm uma meta de consumo para 2020 de 36 bilhões de galões, equivalente a 136 bilhões de litros. Isso é mais que o dobro da produção nacional. Se não houver um avanço na produção, eles precisarão importar”, explica.
COMÉRCIO
Apesar da crise, há espaço para crescer
As relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos vão muito bem, afirma o professor Sidney Ferreira Leite. Consultor do Núcleo de Negócios Internacionais da Trevisan Consultoria e coordenador do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Leite explica que essas relações interessam muito ao Brasil, em especial, porque os Estados Unidos são os maiores importadores do mundo e, de tudo que importam, as exportações brasileiras equivalem a somente 1%.
“Parece uma má notícia, mas há um espaço muito grande de crescimento”, diz. Ele afirma que o Brasil mantém excelentes relações diplomáticas, políticas e comerciais com os Estados Unidos. “Se olharmos do ponto de vista estritamente pragmático, a vitória de John McCain nos dará segurança porque ele deverá manter essa política de bom relacionamento, uma relação não protecionista com os agricultores americanos, o que interessa aos nossos agricultores”, diz.
Mas o consultor reitera que estamos no meio de uma crise econômica cujas dimensões ainda não estão muito claras. “Considerando esse aspecto, o candidato Barack Obama parece oferecer maiores condições políticas para o êxito dos Estados Unidos dentro dessa crise”, diz.
Segundo o consultor, se a economia americana estiver bem, as demais tendem a ir bem. “Sob esse ponto de vista, me parece mesmo que, para o Brasil, o mais interessante é um candidato que tenha mais condições de tirar os Estados Unidos dessa instabilidade e Obama parece ser ele”, afirma Leite.
RELAÇÕES EXTERIORES
América do Sul continuará na agenda secundária do novo líder
Na análise do professor e coordenador do curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Sidney Ferreira Leite, não somos prioridade na política externa americana, mas desde que o Brasil passou a ser tratado como Estado-líder na região e porque os dois têm ótimas relações, o País parece ser aquele de maior credibilidade na América Latina para os EUA nesse momento.
A agenda do próximo presidente continuará a tratar de temas que até então têm sido centrais na sua política externa, como o Oriente Médio, a Europa e a China. “A América do Sul entra no segundo plano, precisamos ter isso muito claro”, diz. Nos últimos oito anos, entretanto, o Brasil tem sido apontado pelos gestores da política externa americana como a principal liderança regional. E, para Leite, um governo John McCain não vai alterar esse cenário. “Também não vejo mudanças com a chegada ao poder de Obama.”
Segundo o professor, um governo democrata, contudo, tem uma tendência a ser multilateralista, que deverá prestigiar mais as organizações internacionais. “Nesse sentido, o Brasil pode perder um pouco de espaço.”
Quanto à vaga no Conselho Permanente de Segurança da Organização das Nações Unidas que o Brasil pleiteia, qualquer que seja o presidente americano, não haverá avanços. Para Leite, os EUA não estão interessados em reformar esse conselho.
Fonte: http://www.opopular.com.br/anteriores/02nov2008/mundo/2.htm?lg=sino <<
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