Segmento está com excesso de capacidade

Especialistas alertam que montadoras terão dificuldades em manter empregos

De Brasília

O objetivo principal do governo federal ao anunciar ontem a prorrogação da isenção do Imposto sobre Produtos Industrializado (IPI) para a venda de veículos novos, de manter o atual nível de emprego no setor automotivo, poderá ser dificultado pelo fato das montadoras continuarem com excesso de capacidade, em razão da forte queda das exportações, segundo alertaram especialistas ouvidos pela Agência Estado.

A medida anunciada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, está atrelada à manutenção de empregos, mas permite que as empresas adotem Programas de Demissão Voluntária (PDV) e a demissão de trabalhadores temporários ao final de seus contratos.

O sócio-diretor da André Beer Consulting, André Beer, lembrou que as empresas estão trabalhando em ritmo menor de produção neste ano, por conta da grande redução das exportações, o que indica que ajustes são necessários. "Há um excesso de capacidade entre 10% e 15% nas fábricas", avaliou. A saída, na visão do consultor, deve ser a adoção de novos Programas de Demissão Voluntária (PDVs), a exemplo do que fez a Ford.

O diretor de assuntos de relações governamentais da Ford para a América do Sul, Rogélio Golfarb, confirmou ontem que o PDV anunciado pela empresa na semana passada será mantido apesar da prorrogação da isenção do IPI. O executivo preferiu, no entanto, não revelar qual a meta da empresa com o programa e qual a capacidade excedente da companhia.

O executivo informou que as exportações da montadora devem cair neste ano por conta do cenário restritivo do mercado mundial. A projeção é de que as vendas externas respondam por uma fatia entre 20% e 22% das vendas neste ano. Entre os anos de 2006 e 2007, a participação chegou a 42%.

A vice-presidente da Booz & Company, Letícia Costa, avaliou que a prorrogação do benefício é positiva e importante, mas ressaltou que é difícil dizer se seus efeitos terão a mesma intensidade do que foi visto no primeiro trimestre do ano. "Os efeitos para o setor vão depender de outros fatores, como o comportamento da economia", explicou.

Para Letícia, em um cenário de aumento de desemprego, dificilmente veremos a retomada das vendas, enquanto em um cenário de retomada da economia, o efeito é inverso. "Por isso acho importante que o governo tenha dado flexibilidade para as montadoras fazerem novos ajustes de pessoal, se necessário", afirma.

A analista do setor automotivo da Tendências Consultoria Integrada , Mariana Oliveira, espera uma queda de 17% na produção do setor neste ano, puxada pela redução das exportações. Para as vendas internas a projeção é de queda de 11,2% veículos em 2009, para 2,5 milhões de unidades.

Apesar de considerar positivo que o benefício tenha sido prorrogado, a analista destacou os limites dos seus efeitos. "Não espero um nível de vendas tão forte no segundo trimestre, visto que o número de consumidores indecisos, atingidos pela isenção, é limitado", afirmou.

Para a economista, as montadoras deverão retomar o ritmo de produção de forma gradual, o que é suficiente para evitar novas demissões, mas não para reverter dispensas já realizadas. A opinião é compartilhada pelo sócio diretor da Trevisan Consult, Olivier Girardi. Segundo ele, com a prorrogação do IPI uma faixa entre 20% e 25% dos empregos diretos nas montadoras que estavam ameaçados sejam agora assegurados. "Essa parcela representa praticamente um turno de produção do setor", disse.

Beer destacou ainda que, dependendo do comportamento da economia nos próximos meses, existe a possibilidade da prorrogação acontecer novamente. "Já tivemos resultados positivos no primeiro trimestre, trazendo benefícios para o governo, empresas e consumidor", afirmou.

A previsão do consultor é de que as vendas internas de carros nacionais somem 2,3 milhões de unidades este ano, o que representaria uma redução de 8% sobre 2008. Já a produção de veículos, avaliou, deve cair em torno de 13% para 2,8 milhões de unidades.

Algumas montadoras já revisaram medidas tomadas para enfrentar o desaquecimento do mercado ocorrido no final do ano passado por conta da melhora nas vendas do primeiro trimestre. A Renault decidiu pelo retorno de 500 funcionários ao trabalho na unidade de São José dos Pinhais, no Paraná.

A volta ocorreu após eles terem ficado quase três meses afastados em licença remunerada. Para o presidente da Fiat na América Latina, Cledorvino Belini, a prorrogação vai ajudar a manter a recuperação do ritmo de produção e vendas da indústria, com repercussão em toda a cadeia produtiva e também na manutenção de empregos. (AE))

 

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