Todos por um!
A gestão participativa é um processo que valoriza a atuação das pessoas dentro do sistema de tomada de decisões da administração das empresas em geral, inclusive as de construção civil, como incorporadoras, construtoras, escritórios de arquitetura e engenharia. Introduzir esta cultura, porém, é uma tarefa árdua, até porque participar não é natural nos modelos convencionais de gestão. Essa é a opinião da consultora especialista em administração com ênfase em RH do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), Maria Cristina Alves.
“Em meio à crise, este modelo pode vir a ajudar as empresas”, defende Ronaldo Fragoso, sócio da área de Gestão de Riscos Empresariais da empresa de consultoria Deloitte Brasil. Segundo ele, boas práticas de governança corporativa – que incluem a gestão participativa – são valorizadas pelo mercado. Além disso, as empresas que mais sofrem com a crise internacional devem passar por um processo de adoção deste modelo, em seu entender. “É uma das formas de reduzir as perdas e ultrapassar essa turbulência do mercado. Com boas práticas, as companhias terão melhor acesso ao crédito, ganharão um diferencial competitivo e melhorarão internamente a tomada de decisão”, alega Fragoso.
Por outro lado, a consultora do Sebrae, Maria Cristina Alves, alerta que existem diversos paradigmas que mantêm a maioria dos trabalhadores alienados em relação ao controle de seu próprio trabalho e à gestão da empresa. Por isso, introduzir esta forma de gestão envolve mudança de mentalidade e responsabilidade sobre a expectativa e motivação do quadro de funcionários. “Tenho acompanhado alguns escritórios de engenharia e noto que esse modelo se aplica melhor em pequenas empresas, porque uma das formas de gestão participativa envolve a remuneração através de participações nos lucros. O funcionário
da grande empresa, com uma alta expectativa, sente-se um pouco dono daquele negócio e pode ficar frustrado quando recebe uma pequena participação, que se dá devido ao grande número de funcionários”, explica.
De acordo com a consultora, esta prática não pode ser um modismo ou ainda um momento diferenciado da empresa. “Depende muito de como será implantada. Não basta querer ser democrático e definir tudo em uma reunião. É um processo cultural no qual as pessoas passam a ter um papel diferencial dentro da empresa”, afirma.
Entre os diversos formatos que as empresas podem adotar para iniciar a implantação da nova cultura participativa, estão a criação de conselho de funcionários, participação na direção, espaços destinados especialmente para criatividade e sugestões de novas ações; planejamento participativo, equipes autogerenciadas, autogestão, participação nos resultados, processos de remuneração estratégica, entre outros. “Uma das empresas que atuam na área da construção e que implantou um banco de ideias foi a MR V Engenharia”, conta Maria Cristina Alves.
A consultora diz que, com a administração participativa, aprimorando o nível de decisão e o clima organizacional, contribui-se para aumentar a competitividade das empresas. “Administrar participativamente consiste em compartilhar as decisões que afetam a empresa, não apenas com os funcionários, mas também com clientes ou usuários, fornecedores, e eventualmente distribuidores ou concessionários da empresa”, explica.
Segundo ela, as notícias que chegam de empresas de diversos setores que optaram por implantar este sistema de forma séria e responsável é de crescimento. “O clima organizacional melhorou muito, aumentou o grau de envolvimento dos funcionários com a cultura da empresa, a produtividade elevou-se, assim como a competitividade no mercado”, afirma.
Com relação à crise internacional, a consultora alerta que o grande patrimônio das empresas são os funcionários, portanto, é preciso frear o processo de demissões. “O ideal é conversar com os trabalhadores e tentar chegar a um acordo. Todo processo democrático é positivo. A gestão sempre é válida quando as sugestões são aproveitadas”, diz.
Precauções
Em princípio, não existem desvantagens para adoção de uma gestão participativa, entretanto, alguns cuidados devem ser tomados por parte da liderança. A afirmação é do diretor de operações da Trevisan Consultoria , Edison Cunha. “A empresa deve se encontrar em um estágio de maturidade para que este envolvimento seja produtivo.
Também deve existir um sentido de organização refletido nos processos, atividades e funções exercidas pelos colaboradores, para que não haja sobreposições e ingerências no convívio harmônico das equipes”, diz. Cunha explica ainda que o papel da liderança é fundamental para o êxito da gestão participativa, a fim de criar um ambiente propício ao florescimento das ideias, eliminando os obstáculos à criação e, principalmente, indicando os rumos que a empresa está tomando em sua estratégia, para melhor direcionar os esforços de todos.
Em relação ao segmento de construção civil, Cunha afirma que pouco tem sido feito em termos de gestão participativa. “Trata-se de um setor de mão-de obra intensiva, com um nível de escolaridade baixa no setor de produção. Isto em si não é um impeditivo para criar um ambiente participativo, mas acaba se refletindo na gestão administrativa que, em geral, fica pouco profissionalizada”, avalia.
Na perspectiva do diretor, as empresas que adotam este tipo de cultura geralmente estão classificadas como ‘as melhores para se trabalhar’ nos rankings de revistas especializadas em gestão.
De acordo com ele, há várias formas de se atingir este objetivo de participação. Em geral, as empresas ressentem-se da ausência de um planejamento de médio e longo prazo e uma das formas de desenvolvê-lo é agregar o nível gerencial neste processo de reflexão sobre o futuro. “Os gestores devem envolver suas equipes de trabalho para agregar outras ideias e mantê-los informados sobre o progresso do planejamento. Desta forma, cria-se um ambiente participativo onde todos se envolvem com um propósito específico de planejar a empresa. Este exercício pode ser o começo para outras situações em que o coletivo possa participar”, afirma.
Retroalimentação
A Cyrela Brasil Realty mantém um processo interno denominado retroalimentação. Nele, construtora, incorporadora e assistência técnica (pós-venda) estudam todos os problemas ocorridos em obra ou em projeto. “Todas as patologias são trazidas por diversas fontes e as questões são debatidas em reuniões mensais. Geralmente, é a construtora que aponta esses problemas, mas a assistência técnica é outra grande fonte”, observa o diretor de operações da empresa, Antônio Carlos Zorzi. Ele aponta um exemplo vindo desse setor, que assinalou, no contato com os clientes, que paredes apresentaram fissuras. “Analisamos se houve problemas no revestimento ou no projeto. Se for preciso, mudamos até o conceito do projeto”, reforça.
Nas reuniões é decidido quem vai mudar o que, após uma análise das causas. Elas se repetem, já que os coordenadores passam as alterações aos seus engenheiros, que as repassam aos seus encarregados. Além disso, essas análises ficam no sistema, ao qual todos têm acesso. “Quando implantamos este trabalho foi um caos, porque quem era responsável pela obra ficava sem graça quando algum problema surgia a respeito. Mas estamos há quatro anos desenvolvendo este trabalho. E como vencer essa dificuldade inicial? Se alguém souber, me avise”, brinca o diretor. “Na verdade, vamos ajudar o profissional que errou, tentando acertar. Agora, se a pessoa é irresponsável, terá o que plantou. Porém, até a equipe entender isso, demora; mas hoje não temos mais problemas com relação a isso”, diz.
Análise
A empresa que deseja introduzir a cultura da gestão participativa deve levar em consideração os seguintes aspectos para analisar a viabilidade desta ação:
• Conhecer a realidade, isto é, analisar aspectos externos e internos, de forma a identificar, basicamente, qual é o objetivo da implantação da gestão participativa;
• Estabelecer os objetivos das mudanças: formular para curto, médio e longo prazos o que se espera alcançar da empresa quanto a crenças, valores, sentimentos e ações, tanto dos administradores quanto dos executores das atividades;
• Conhecer o que precisa ser mudado, tendo sempre em mente os objetivos e o diagnóstico da empresa;
• A valiar os resultados, isto é, analisar se o processo vem se efetivando, a fim de realimentar o planejamento;
• A gir no sentido de enfrentar o desafio de transformar, o que requer, entre outras atitudes, libertação de preconceitos e tradições; entendimento da realidade como algo mutável; e substituição do temor e da submissão do empregado pela participação; além do tratamento igualitário a todas as pessoas da empresa.
Texto: Aline Cunha
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