Pista livre para a Marcopolo
A Marcopolo não é apenas uma fabricante de ônibus. Ela também vende consultoria em sistemas de transporte. Com isso, conseguiu ganhar o mundo
ROSENILDO GOMES FERREIRA
NO DIA 11, A DIREÇÃO DA gaúcha Marcopolo, fabricante de ônibus, assinou um contrato para fornecer 143 ônibus para a prefeitura de Johannesburgo (África do Sul). Os veículos serão usados no novo sistema de transporte coletivo de vias segregadas, batizado de Rea Vaya (Nós vamos, em português). Além de deixar para trás competidores de todas as partes do mundo, a vitória confirmou o acerto da aposta da empresa em um modelo de negócio que já carimbou seu passaporte em 100 países e garantiu 39% da receita de R$ 2,5 bilhões, obtida em 2008. É que junto com o ônibus a companhia coloca à disposição do cliente um pacote que inclui desde a consultoria para o desenvolvimento do projeto e a definição do melhor modelo de veículo até a gestão da frota. Uma estratégia considerada acertada pelos analistas do setor. "Para ser competitivo é preciso oferecer soluções e não apenas produtos. E isso a Marcopolo está mostrando que sabe fazer", opina o consultor Olivier Girard, sócio-diretor da Trevisan Consultoria Consultoria e especialista em indústria automotiva e logística. "No geral, a maioria dos fabricantes fala apenas em vender ônibus, ninguém se preocupa com o sistema de transporte", reforça o urbanista e arquiteto curitibano Jaime Lerner. A Marcopolo começou a inverter essa lógica em meados da década de 1990, quando entrou na licitação do projeto Transmilênio, de Bogotá (Colômbia). "Na época, nós incluímos em nossa proposta a possibilidade de o cliente utilizar os serviços do escritório de Jaime Lerner", conta Carlos Zignani, diretor de relações com investidores da Marcopolo. Hoje, 600 ônibus com a grife da empresa gaúcha trafegam naquela cidade.
A partir dessa experiência bem-sucedida, a direção da Marcopolo viu que poderia transformar em um diferencial competitivo a experiência adquirida ao longo de sua trajetória no setor. Com isso, passou a explorar cada vez mais a vertente de consultoria e a capacidade de customizar seus produtos. Esse trabalho é feito por uma equipe de 200 engenheiros que dão expediente na fábrica de Caxias do Sul. E esse tem sido o grande trunfo para concorrer com potências globais, como a francesa Alstom, que faz lobby pela adoção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). "O ônibus sempre será competitivo em países com renda média baixa e grande contingente populacional", destaca Zignani. Foi esse discurso, um pacote de serviços e a produção local que garantiram a vitória na licitação da Prefeitura de Nova Délhi (Índia). O acordo, que deverá ser assinado em breve, prevê a entrega de 1,6 mil ônibus articulados até meados de 2010.
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