A inflação no Brasil e no
mundo
Pedro Raffy Vartanian
Economista, consultor do núcleo de negócios
internacionais da Trevisan Consultoria, professor da Trevisan
Escola de Negócios
Após cinco anos consecutivos de queda
no Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA) reverteu a tendência em 2007, ano caracterizado
pela preocupação com a inflação
por parte do Banco Central do Brasil e de seus congêneres
dos Estados Unidos, Inglaterra, Europa e China. Na economia
americana, tais inquietações perderam espaço
somente para a crise no mercado de crédito imobiliário.
A inflação pode ser definida como aumento generalizado
nos preços. Os principais grupos de indicadores são
os Índices de Preços aos Consumidores (IPC"s)
e Índices de Preços aos Produtores (IPP"s).
A divisão justifica-se pelo fato de a cesta de consumo
das famílias não ser igual à das empresas.
Por isto, em muitos casos os IPC´s apresentam valores
muito distintos dos IPP´s, e estas diferenças
possibilitam a realização de avaliações
prospectivas.
Nesse contexto, ocorre a inflação
de demanda (quando o aumento do preço de determinado
produto advém da elevação do consumo),
e a inflação de oferta (quando elevações
dos custos das empresas acarretam reajustes nos preços
dos produtos). O principal determinante da inflação
de demanda é o aumento da renda das famílias.
A de oferta é determinada principalmente por elevações
nos preços do petróleo, salários e insumos.
Em termos mundiais, nota-se que houve a perigosa
combinação dos dois tipos. Do ponto de vista
da oferta, a elevação dos preços do petróleo
e de outras fontes de energia pressionou os custos das empresas.
Estes aumentos também decorreram da alta nos preços
das matérias-primas, ocasionada principalmente pelo
forte crescimento dos países emergentes. Do ponto de
vista da demanda, a elevação da renda das famílias,
oriunda do crescimento econômico, ampliou os gastos.
Como resultado, a inflação apresentou comportamento
de alta nas principais economias, incluindo o Brasil.
Aqui, o IPCA fechou 2007 em 4,46%, revertendo
tendência de queda iniciada em 2002, quando atingiu
12,53% (quase quatro vezes superior ao do ano passado). O
principal grupo responsável pelo IPCA de 2007 foi o
de alimentação, que representou praticamente
metade do índice (2,21%). Supondo que os alimentos
não tivessem sofrido reajustes no exercício,
a inflação anual seria de apenas 2,25%, número
extremamente baixo para os padrões brasileiros, explicado
principalmente pela valorização do real frente
ao dólar, que fez com que os produtos importados custassem
menos, pressionando os concorrentes nacionais.
O Índice Geral de Preços do Mercado
(IGP-M) fechou 2007 com variação de 7,75%, praticamente
duas vezes superior à de 2006, de 3,83%. O IGP-M é
utilizado no reajuste de vários contratos e preços,
como aluguéis, energia elétrica e prestação
de serviços. É composto por três outros
índices: preços ao consumidor; preços
ao atacado; e o que apura os custos da construção.
Embora não seja o medidor mais adequado da inflação
de oferta, o IGP-M aproxima-se muito de um IPP, e a alta registrada
em 2007 impactará os custos das empresas quando ocorrerem
reajustes de aluguéis e energia, além, é
claro, das despesas das famílias, que também
têm gastos com aluguéis e energia elétrica.
Isto significa que há um descontrole
dos preços e que a inflação inverterá
sua tendência de queda no Brasil e no mundo? Certamente
não! Os bancos centrais vêm demonstrando atenção
com relação aos níveis dos preços
e controlando a taxa básica de juros para evitar a
inflação de demanda. Com juros elevados, as
famílias consomem menos, pois o custo do crédito
é maior. Além disso, os consumidores preferem
poupar recursos ao invés de gastar, já que a
remuneração pelo dinheiro investido é
maior. Isto impede pressões inflacionárias oriundas
de aumento da demanda. A redução da taxa de
juros nos Estados Unidos somente foi possível em função
de indícios de um cenário recessivo, que contrai
a demanda. A manutenção da Taxa Selic no Brasil
na última reunião do Copom foi necessária
para interromper o crescimento da demanda.
Em termos de oferta, a situação
é mais preocupante. Há indícios de que
os preços da energia no Brasil e no mundo devem continuar
altos. No caso brasileiro, falta de chuvas, baixo nível
dos reservatórios e incertezas com relação
ao fornecimento de gás natural vêm pressionando
o custo da energia fornecida ao parque industrial. Cumpre
ressaltar que os efeitos de elevações da taxa
básica de juros sobre a inflação de oferta
são reduzidos e, geralmente, recessivos sobre a produção.
Neste sentido, o fato de o IGP-M ter apresentado comportamento
de alta sugere inflação de oferta em 2008.
Além disso, a intensidade da valorização
do real em relação ao dólar será
reduzida no primeiro semestre de 2008 e interrompida no segundo
semestre, em função da reversão do saldo
positivo da conta corrente. Isto praticamente eliminará
a pressão deflacionária dos produtos importados.
Assim, o crescimento de 2008 poderia acentuar ainda mais a
combinação indesejável de inflação
de oferta com inflação de demanda.
Felizmente, os mercados costumam ajustar-se
rapidamente às mudanças. Os problemas com os
custos da energia podem ser parcialmente resolvidos por inovações
tecnológicas capazes de aumentar a eficiência
energética, além da utilização
de novas fontes. A resposta à crescente demanda mundial
por alimentos vêm sob forma de maior área destinada
ao plantio, ganhos de produtividade e aumentos da oferta,
que implicam reduções nos preços dos
produtos agrícolas. Finalmente, a atuação
dos bancos centrais, com políticas monetárias
ativas, pode assegurar a estabilidade dos preços nas
economias, garantindo, dessa forma, que o comportamento relativamente
tranqüilo observado nos últimos anos prolongue-se
por muito tempo.
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