Conselho em tempos bicudos

Antoninho Marmo Trevisan

A crise financeira internacional tornou mais complexos os desafios das empresas quanto à conquista de resultados, eficácia e longevidade. É uma ótima oportunidade de se reavaliarem estratégias focadas no crescimento dos negócios, melhoria da rentabilidade, financiamento, administração do capital, promoção das capacitações para enfrentar a concorrência, gerenciamento do patrimônio humano, identificação de oportunidades e incentivo a iniciativas inovadoras. Alguns desses desafios precisam ser repensados. Um deles refere-se ao modelo de agir para se sustentar no mercado e se manter perene; outro é relativo ao aconselhamento sobre o rumo dos negócios.

Nesse contexto, a governança corporativa pode ganhar importante significado em época de vacas magras e se transformar no verdadeiro diferencial competitivo. O seu exercício com a devida competência passou a representar a garantia segura da orientação estratégica da empresa e a fiscalização efetiva das ações da diretoria.

Em contrapartida, também pressupõe a prestação de contas de maneira mais clara do conselho à empresa e aos acionistas.Tais práticas tornam-se cruciais na busca da confiança, infelizmente perdida, daquelas pessoas comuns, as quais, atraídas pelo sonho da multiplicação do seu dinheiro, foram levadas à Bolsa pelo mundo sem se darem conta dos riscos envolvidos nas operações.

É natural que esses perdedores queiram explicações e até exijam indenizações pelas decisões eventualmente tomadas ao arrepio das boas práticas de governança.

É preciso, contudo, separar os que simplesmente tomaram decisões no sentido de dar proteção aos seus negócios daqueles que jogaram para beliscar um pouco mais.

Na situação atual, enxergar a crise que o mundo enfrenta apenas como problema cíclico do capitalismo parece ser uma cegueira colossal. Fatos da proporção que estamos vivendo envolvem também reflexões sobre valores da sociedade e o que pode se vislumbrar para um futuro melhor das pessoas, ao mesmo tempo que se dá a necessária recuperação da estabilidade financeira mundial.

É nesse particular que os conselheiros e membros de órgãos da governança corporativa devem estar alinhados, refletindo sobre essas novas tendências e fazendo com que nos seus importantes papéis contribuam nessa fase em que as organizações sofrem pela desaceleração dos negócios e pela crise de confiança que se instala.

Antoninho Marmo Trevisan* - Presidente do Conselho Consultivo da BDO Trevisan


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