Empresários
indicam o que falta para a reforma
DCI - São Paulo - SP - 07/01/2008
Integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social (CDES) da Presidência da República vêem
como essencial para uma reforma tributária a desoneração
da folha de pagamento e dos investimentos. Por outro lado,
apresentam argumentos que inviabilizam a aprovação
dessa reforma no País em 2008. Os principais fatores
negativos para o atraso nesse processo são as eleições
municipais, a ausência de sinalizações
para a redução de alíquotas e até
o impacto da derrota política do governo no caso da
Contribuição Provisória sobre Movimentação
Financeira (CPMF), que gerou o aumento das alíquotas
do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)
e da Contribuição sobre o Lucro Líquido
(CSLL) para os bancos.
O DCI ouviu dez líderes de diferentes
setores da economia, que participam do Grupo de Trabalho Reforma
Tributária do chamado Conselhão, organismo criado
pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para contribuir
com as definições de grandes projetos de desenvolvimento
do Brasil.
Para o setor industrial, ao elevar as alíquotas
do IOF e da CSLL para compensar as perdas da CPMF, a equipe
econômica do governo "andou para trás"
no processo de reforma tributária. "A medida é
descabida e desnecessária, pois a União terá
aumento de arrecadação de R$ 40 bilhões
em 2008, já descontada a receita da CPMF", afirmou
Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp) e integrante do GTRT
do Conselhão.
Hélcio Honda, diretor titular do Departamento
Jurídico da Fiesp, frisa que a proposta apenas simplifica
o sistema tributário. "A reforma que tem sido
apresentada pelo Ministério da Fazenda não tem
um viés de trazer desoneração e sim simplificação
do sistema", afirma Honda. Para seu colega Ricardo da
Rocha Loures, presidente da Federação das Indústrias
do Estado do Paraná (Fiep), o governo se mostra tímido
na redução de alíquotas. "Se o Executivo
se empenhasse neste tema como se empenhou para aprovar a prorrogação
da CPMF teríamos avançado muito no debate",
diz Loures.
Ano eleitoral
O economista Clemente Ganz Lúcio, diretor
técnico do Departamento Intersindical de Economia e
Estatística (Dieese), e Antoninho Trevisan, presidente
das empresas Trevisan, acreditam que o Congresso não
conseguirá conciliar a discussão sobre a reforma
em um ano eleitoral. "Os parlamentares vão ocupar
seus prazos máximos para debater o tema, o que pode
levar dois anos", pondera Ganz Lúcio. Trevisan
também mostra boa dose de ceticismo: "Em anos
eleitorais assuntos dessa natureza têm pouca chance
de discussão e aprovação", lamenta.
Os integrantes do CDES ouvidos pelo DCI levantam
outros empecilhos à implementação de
uma reforma tributária no País ainda em 2008,
como a indefinição sobre a desoneração
da folha de pagamento e dos investimentos. Segundo Trevisan,
o governo errou ao tratar CPMF e reforma tributária
separadamente. "Uma de nossas recomendações
era fazer a compensação da CPMF com a desoneração
progressiva da folha de pagamento. Apenas no finalzinho da
negociação com o Senado foi que o governo ofereceu
essa alternativa. Aí já era tarde", conta
Trevisan. Para Antônio Neto, presidente da Central Geral
dos Trabalhadores (CGTB), representante do movimento sindical
no Conselhão, "o governo poderia ter avançado,
e muito, no projeto de reforma tributária se a desoneração
da folha estivesse contemplada".
O representante do setor automobilístico
no CDES Jackson Schneider, presidente da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea),
prefere esperar pelo detalhamento das recentes medidas compensatórias
à CPMF para comentar o assunto.
Investimentos
O conselheiro Paulo Godoy, presidente da Associação
Brasileira da Infra-Estrutura e das Indústrias de Base
(Abdib), defende a desoneração dos investimentos.
"O ideal seria o fim dos impostos sobre investimentos,
com a lógica de que o poder público incentivará
o aumento da capacidade instalada e o incremento da movimentação
econômica, o que resultará em aumento da geração
de emprego e da arrecadação".
Dentro do CDES o governo alcançou consenso
com a proposta de lançar o Imposto sobre Valor Agregado
Federal (IVA-F) e Estadual (IVA-E), que vai unificar tributos
administrados pela União e criar uma única legislação
e faixas limitadas para o Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Serviços (ICMS), contribuindo para
o fim da guerra fiscal.
Na esfera municipal, entretanto, Joseph Couri,
presidente da Associação Nacional de Sindicatos
da Micro e Pequena Indústria (Assimpi), diz que ainda
não há acordo sobre a criação
do IVV no lugar do ISS, uma das principais fontes de receita
das prefeituras brasileiras. "Nós achamos que
o IVV só vai complicar e atrasar o processo de aprovação
da reforma tributária".
Gabriel Jorge Ferreira, presidente da Confederação
Nacional das Instituições Financeiras (CNF),
destaca outro ponto em aberto. "O setor financeiro ficou
um pouco esquecido, embora eu tenha colocado muita ênfase
nas discussões sobre a tributação da
intermediação financeira, a famosa cunha fiscal
dos bancos, que tributa o crédito aumentando o custo
para o contribuinte", comenta Ferreira, que também
ocupa lugar no Grupo de Trabalho Reforma Tributária
do CDES.
Próximo presidente
O ex-governador do Rio Grande do Sul, Germano
Rigotto, travou batalhas pela racionalização
e simplificação do sistema tributário
brasileiro desde a Constituição de 1988. Como
deputado federal, Rigotto liderou uma comissão parlamentar
que tentou votar uma proposta de reforma em 1999. Principal
articulador sobre o assunto no CDES, hoje ele se mostra bastante
pessimista e chega a dizer que a reforma tributária
poderá ficar para o próximo presidente. "Estamos
correndo contra o tempo, se ela não for aprovada até
maio de 2008 dificilmente será aprovada no governo
Lula. Se não houver prioridade e decisão política
do Executivo o projeto volta mais uma vez para gaveta",
adianta Rigotto.
Integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social da Presidência da República vêem
como essencial para a reforma tributária a desoneração
da folha de pagamentos e dos investimentos.
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