Os xerifes da indústria automobilística
Paulo Paiva
Barack Obama cria força-tarefa para salvar as montadoras General Motors e Chrysler
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, colocou o destino de dois ícones da indústria automobilística mundial - General Motors (GM) e Chrysler - nas mãos de dois de seus principais xerifes da economia: o secretário do Tesouro, Timo-thy Geithner, e o conselheiro económico da Casa Branca, Lawrence Summers. A decisão representa uma guinada em relação à orientação anterior, quando o governo cogitou nomear uma espécie de "czar" para comandar pessoalmente - e com carta branca - a reestruturação do setor, praticamente à beira da falência. "Não haverá um czar do setor automobilístico", afirmou uma fonte da Casa Branca. Hoje, GM e Chrysler apresentam no Congresso dos EUA um pré-plano para provar que são economicamente viáveis e receber mais ajuda financeira do governo. A Ford, outra gigante do setor, não pediu socorro governamental.
Os dois xerifes, na verdade, terão uma equipe de especialistas de diversas agências do governo (Economia, Trabalho, Transportes, Comércio, Energia) para seguir de perto a reestruturação das montadoras. Segundo a fonte, Ron Bloom, ex-banqueiro de negócios e especialista em reestruturação, que se tornou conselheiro próximo do sindicato dos trabalhadores (United Steelworkers), fará parte do grupo.
No fim de 2008, GM e Chrysler receberam juntas um total de US$ 17,4 bilhões: ÚS$ 4 bilhões para a Chrysler, e o resto para a GM (US$ 9,4 bilhões diretamente e US$ 4 bilhões via sua filial de serviços financeiros GMAC). A Casa Branca espera da GM e- da Chrysler que elas anunciem hoje progressos concretos desde à ajuda de dezembro, e que elas justifiquem assim as somas antecipadas, antes de uma prestação de contas exaustiva exigida até 31 de março.
Se eles fracassarem em convencer o governo da eficiência de seus planos, as somas antecipadas deverão ser reembolsadas e os US$ 7 bilhões extras prometidos anulados, o que dá pouca margem de manobra além dos recursos ao regime de falências ou concordata. A Chrysler chegou a divulgar uma parceria operacional com a Fiat, mas os planos não avançaram.
A mudança de direção anunciada por Obama foi interpretada pelo mercado como um sinal de que o presidente não pretende deixar as empresas quebrarem. "Duvido que o governo dos EUA vai deixar que as empresas quebrem. Obama precisa passar uma mensagem ao mundo de que vai consertam economia. O que pode acontecer é o governo ajudar na consolidação do setor, ou seja, favorecer a formação de uma ou duas empresas forte, ao invés de deixar três montadoras fracas", diz Olivier Girad, consulta" do setor automobilístico da Trevsan. "Obama vai buscar soluções para não aprofundar a crise. Ele sabe que é um momento delicado, e vá conclamar a todos que busquem soluções", frisa Paulo Petroni, especialista no setor de automóveis e sócio da PriceWaterhouseCoopers.
As montadoras estão, neste momento, empenhadas em cortar custos. A GM, por exemplo, indicou ontem que pretende estender suas medidas de reestruturação para a Europa, devido à severidade da desaceleração econômica. A filial européia da GM quer reduzir os custos para compensar a grave desaceleração da economia local, onde o mercado de automóveis vem enfrentando uma "queda dramática" que pode demorar anos para se resolver, destacou o grupo em um comunicado. No Brasil, a GM ainda garante que vai manter os investimentos. Segundo o comunicado, o grupo adotará medidas "não convencionais" e "agressivas" para cortar custos na Europa. Especula-se que a GM pode fechar pelo menos três fábricas no continente -Antuérpia (Bélgica), Ellesmere Port (Reino Unido) e Alemanha. Nos EUA, a GM pretende reduzir à metade seu pessoal, que era de 141 mil no fim de
2005, para uma faixa entre 65 mil e 75 mil até 2012. Na avaliação de Girard e Petroni, contudo, a grande mudança das empresas terá que vir na forma de carros menos beberrões, menos poluentes e mais baratos -única forma de concorrer com os japoneses. (Com agências)
E o Japão desaba mais uma vez
A economia do Japão está atravessando sua pior crise desde o final da guerra, afirmou ontem o ministro de Política Econômica e Orçamentária, Kaoru Yosano, depois da divulgação de cifras que revelam que o país sofre a maior contração em 35 anos. "Esta é a pior crise desde o final da guerra. Não resta dúvidas', declarou Yosano. Segundo cifras oficiais, a economia japonesa sofreu no quatro trimestre de 2008 a pior contração desde 1974, com uma queda de 12,7% do Produto Interno Bruto (PIB).
"A economia japonesa, cujo crescimento depende muito das exportações de automóveis, maquinário e equipamentos de informação, ficou literalmente arrasada pela crise", afirmou Yosano. "O Japão será incapaz de superá-la sozinho. As fronteiras não existem na economia. Nossa economia arrancará de novo ao mesmo tempo que os outros países", acrescentou o ministro.
PACOTAÇO Este retrocesso do PIB é o mais forte desde a queda de 13,1% em ritmo anual registrada no primeiro trimestre de 1974, em plena crise do petróleo. Os economistas esperavam por uma contração de 11,6% a ritmo anual, e de 3% em relação ao trimestre anterior. O Japão se encontra oficialmente em recessão desde o terceiro trimestre de 2008, quando sua economia retrocedeu 0,6% em relação trimestre precedente, depois de uma contração de 0,9% no segundo trimestre. O governo prepara um novo pacote de estímulo econômico para combater essa situação, que pode chegar a US$ 109 bilhões.
Paralelamente, o ministro das Finanças do Japão, Shoichi Nakagawa, pediu desculpas ontem por seu comportamento estranho durante entrevista coletiva realizada depois da reunião de ministros de Finanças do G-7 (o grupo dos sete principais países industrializados), no último fim de semana, em Roma. Nakagawa abriu ainda a possibilidade de renunciar ao cargo, mas disse que essa é uma decisão a ser tomada pelo primeiro-ministro do país. "Minha conduta na entrevista coletiva foi resultado de remédios e um pouco de vinho. Peço desculpas por isso", declarou Nakagawa.
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