| TI irá desembarcar
na Bolsa
Gazeta Mercantil - São Paulo - SP - 18/02/2008
Diversas empresas de áreas ligadas à
TI (tecnologia da informação) estão preparando
sua ida à Bolsa. Em meio às turbulências
nos mercados acionários mundiais, um dos caminhos escolhidos
é o da Bovespa Mais, que possibilita captações
menores. A próxima companhia a tomar esse rumo deve
ser a Senior Solution, cujos principais sócios são
o fundo de venture capital Stratus e o BNDES (Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social). A decisão
final será tomada entre março e abril. E o IPO
está programado para ocorrer ainda no 1º semestre
do ano. "Estávamos aguardando para ver como seria
a estréia do Bovespa Mais. Nossa avaliação
é que, mesmo em um momento de alta aversão a
riscos, a chegada da Nutriplant mostrou que nossa ida ao novo
segmento é viável", explica o presidente
da Senior Solution, Bernardo Gomes. A empresa, que tem como
clientes os dez maiores bancos privados do País, dobrou
seu faturamento - de R$ 15 milhões para R$ 30 milhões
- entre 2006 e 2007. "Com o IPO, esperamos ter fôlego
para faturar R$ 400 milhões em alguns anos. Isso tornará
possível nosso planos de internacionalização.
Para isso, precisaremos do mercado de capitais para continuar
adquirindo empresas e ganhando escala e volume", afirma
Gomes.
Há outras companhias de TI do País que mantêm
o interesse em listar-se e negociar ações. Porém,
devem aguardar um momento mais favorável para preparar
sua oferta pública inicial de ações.
É o caso da goiana Politec, que atua com manutenção
de software e sistemas e gestão de empresas. Seu faturamento
anual é superior a R$ 500 milhões. "Nosso
plano é ir à Bolsa em 2009. Queremos chegar
ao Novo Mercado e, por isso, temos de aguardar a próxima
janela que o mercado abrir", diz o diretor-presidente
da Politec, Luiz Ribeiro.
Outra companhia do segmento de TI que se estrutura para fazer
IPO é a CPM Braxis, uma das maiores empresas brasileira
de TI. No entanto, de acordo com as informações
apuradas pela Gazeta Mercantil, sua oferta não ocorrerá
em 2008. A empresa organiza-se internamente e o assunto voltará
à ordem do dia com maior intensidade no fim do ano.
"Há, em TI, uma corrida por consolidação,
ganhar musculatura e ir à Bolsa", afirma o conselheiro
da ABVCAP (Associação Brasileira de Private
Equity e Venture Capital), Sidney Chameh.
O executivo, que também é sócio-fundador
da DGF (Decisão Gestão de Fundos), foi um dos
responsáveis pelo aporte que gerou, em 2005, a fusão
entre Microsiga e Logocenter. No ano seguinte, fortalecida,
a empresa abriu capital na Bovespa, com nome de Totvs. Com
a oferta mista de papéis, levantou aproximadamente
R$ 460 milhões. "Acredito que há pelo menos
dez empresas do setor em processo de preparação
para fazer seu IPO. Até o fim do ano passado, uma companhia
com faturamento anual de R$ 100 milhões era alvo para
ir à Bolsa. Agora, terão de esperar um momento
mais favorável, devido ao nível de incerteza
na economia norte-americana", pondera.
Na prateleira da CVM
Atualmente, duas companhias de TI têm pedidos de registros
em análises na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
São a Tivit, que deu entrada no processo no início
de outubro do ano passado, e a Locaweb, que fez o mesmo no
fim do mês seguinte. A Tivit, no entanto, solicitou
a suspensão da oferta por 60 dias. Durante o período,
pode optar por dar seqüência ao processo ou desistir
de fazer seu IPO.
Para o diretor de auditoria da BDO Trevisan, Henrique Campos,
ofertas de ações de outras empresas de tecnologia
da informação devem vir ainda no segundo trimestre
do ano. "Há dois fatores que definirão
esse movimento. O primeiro tem relação com os
balanços e análises de resultados das empresas
- o prazo vai até 31 de março. O segundo fator
será o término do ano financeiro, que acontece
em 31 de julho", cita, referindo-se ao mercado americano.
"Até lá, muitas das empresas de TI com
origem familiar devem decidir ir ao mercado", estima
o especialista de mercado de capitais da BDO Trevisan.
Há, entretanto, outros fatores que podem tornar a ida
de empresas de TI à Bovespa mais lenta. "O maior
deles está ligado às relações
trabalhistas que essas firmas mantêm com seus colaboradores",
diz um dos sócios da Deloitte, Eduardo Jorge Costa.
"Há nelas um alto nível de terceirização
e são poucas as que seguem as normas trabalhistas da
forma adequada", diz o executivo.
Para Costa, o mercado mostrará para essas companhias
que fazer uma oferta de ações listando-se no
Bolsa de Valores não será mais viável.
"Os bancos coordenadores não têm muito interesse
por colocações menores, que é o propósito
desse tipo de segmento. E, além disso, como o mercado
está mais seletivo na escolha de papéis, acho
que o jeito será mesmo ir direto para o Novo Mercado",
explica Costa.
O valor médio para a oferta de ações
de uma companhia do segmento de TI é de R$ 600 milhões.
O cálculo é do advogado Gustavo Contrucci, do
escritório Castro, Barros, Sobral e Gomes, que confirma
que a questão da governança corporativa é
um dos aspectos muito considerados pelo mercado ultimamente.
"O caso Cisco fez com que essa percepção
se acentuasse", afirma o advogado.
Em outubro do ano passado, a Cisco foi acusada de organizar
um esquema fraudulento de importações para não
recolher impostos, cuja investigação se prolonga
até hoje. De acordo com a PF (Polícia Federal),
as perdas para o Fisco podem ter alcançado mais de
R$ 500 milhões nos últimos cinco anos.
Na ocasião, o presidente da companhia no Brasil, Pedro
Ripper, foi preso pela PF. "Após esse episódio,
houve uma certa retração de empresários
do setor. Eu tinha um cliente cujo contrato de compra de uma
companhia estava assinado. Desistiu", lembra o advogado.
O negócio envolvia, segundo Contrucci, R$ 148 milhões.
Agronegócio deve ter mais empresas
listadas
Segundo os especialistas em aberturas de capital, consultados
pela Gazeta Mercantil, há empresas de outros segmentos
que iniciam movimento de ida à Bolsa. O principal deles
é o de agronegócios, cuja expansão deverá
ocorrer pela demanda por etanol no País. "O setor
sucroalcooleiro é completamente desconcentrado. A Cosan,
por exemplo, deve ter apenas 10% do mercado potencial",
explica o conselheiro da Abvcap, Sidney Chameh. "Já
estamos levantando recursos de fundos para investir em segmentos
de usinas e equipamentos", afirma Chameh.
As oportunidades em agronegócio não devem, entretanto,
ficar limitadas apenas à BDO Trevisan cadeia do etanol.
"Há diversas empresas escondidas no setor",
diz Henrique Campos da Trevisan. "São as que fornecem
insumos e esmagadoras de semente, por exemplo. Há muitas
delas cujo faturamento supera R$ 1 bilhão. E procurarão
naturalmente a Bolsa", diz.
Publicidade e moda
Para Campos, empresas de alguns outros setores estarão
atentas ao alcance de grau de investimento pelo País.
É o caso das principais agências de propaganda
e publicidade. "São companhias que têm excelência
no que fazem. Vão aguardar a valorização
que o grau de investimento trará ao Brasil para acessar
o mercado de capitais", projeta. Já os segmentos
ligados às marcas e grifes de moda ainda estão
no estágio inicial de consolidação. O
movimento de IPOs dessas empresas, portanto, só deve
ganhar consistência em um período médio
entre três e cinco anos.
Para o consultor de negócios da Trevisan, Olavo Furtado,
a forma encontrada para expandir os negócio do setor
foi, por enquanto, a venda de ações dos controladores
para empresas estrangeiras. "Uma das maneiras de poder
se internacionalizar é ter um sócio, concentrando-se
apenas na criação", diz, referindo-se à
venda de duas marcas do estilista Alexandre Herchcovitch à
holding IM (Identidade Moda), ocorrida em janeiro deste ano.
O movimento em moda, porém, parece apenas estar começando.
"Participamos da grande maioria das recentes operações
de aquisição. Há fundos que investem
nessas companhias há três anos. É o prazo
médio para preparar um setor conhecido por ter origem
familiar e informal", explica Costa, da Deloitte. "É
preciso que o setor demonstre ser competitivo e lucrativo,
com informações auditadas para depois ir à
Bolsa", afirma. Opinião parecida tem Sidney Chameh,
da Abvcap. "Será essencial ser lucrativo".
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