Uniformização do câmbio

Justa e razoável: assim pode ser definida a posição assumida pelo governo brasileiro na reunião ministerial do G-20, realizada na Escócia em 6 de novembro. A defesa de um padrão único de gestão do câmbio pelas 20 maiores economias do mundo, representadas naquele foro, é uma iniciativa inteligente, que tem o potencial de tornar o fluxo global de moedas muito mais homogêneo e equilibrado.

Se todas as nações adotassem, de fato, o mesmo modelo de câmbio - e, melhor ainda, se todas optassem pelo câmbio flutuante, que vigora no Brasil desde 1999 -, seria possível evitar distorções importantes, como a apreciação excessiva do real.

Também ficaria mais complicado realizar "manobras financeiras", como as praticadas pela China, que atrela a cotação de sua moeda, o yuan, à cotação do dólar. Para os produtos brasileiros, isso significa uma tremenda desvantagem competitiva no mercado externo, pois o real teve uma valorização de 50% na comparação com a moeda chinesa.

Essas constatações podem fazer a opção pelo câmbio flutuante parecer equivocada, mas essa percepção não é correta. O chamado câmbio administrado não permite um controle tão saudável do fluxo de capitais e dificulta o delineamento de uma política consistente de metas de inflação. Quem viu empresas quebrarem sob o peso da inflação galopante dos anos 80 sabe o quanto isso pode ser horrível para um país.

Além disso, durante os primeiros quatro anos do Plano Real, a economia brasileira praticou o câmbio fixo, em que a cotação do dólar era ajustada de acordo com a inflação. Esse sistema foi substituído em 1999 justamente porque se provou ineficaz. O regime de câmbio flutuante conjugado com o de metas de inflação foi o que mais deu certo no Brasil.

Para retomarmos uma política baseada em câmbio administrado, teríamos que definir um piso ou intervalo entre as cotações do dólar. Desse modo, toda vez que as cotações começassem a cair, o Banco Central compraria moeda estrangeira para restabelecer o equilíbrio de mercado. Parece simples, mas não é.

Em primeiro lugar, ficaria mais difícil praticar uma política de controle de juros. Durante um tempo, o BC poderia emitir títulos de dívida que enxugassem o excesso de moeda nacional, mas a capacidade de endividamento não tardaria a ficar saturada. Foi isso que colocou a Argentina na UTI: lá, a inflação é altíssima, mas o governo usa subterfúgios para manter o dólar cotado a menos de 4 pesos e para maquiar os verdadeiros índices de inflação, de modo a evitar que aposentados e pensionistas reivindicassem os reajustes dos benefícios.

Mesmo que o Brasil adotasse um câmbio administrado mais sensato do que o argentino, haveria uma dificuldade real em equacionar as três principais variáveis econômicas: câmbio, juros e fluxo de capitais. Ao menos uma delas ficaria solta, e muito provavelmente seriam os juros - algo mais nocivo para o mercado do que a flutuação cambial.

Nos últimos anos, a globalização tem obrigado os países a seguir padrões mundiais de qualidade e a adequarem suas políticas contábeis aos modelos já consagrados internacionalmente. Nesse contexto, a uniformização dos modelos de câmbio entre os países que compõem o G-20 seria uma questão de justiça.

* Presidente da Trevisan Consultoria e Outsourcing, diretor da Trevisan Escola de Negócios e Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES)

ANTONINHO MARMO TREVISAN *


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