Para garantir o pão nosso de cada dia

Paola Carvalho

A despesa aumentou, a renda caiu e encontrar trabalho não está nada fácil. Para contornar os efeitos da turbulência econômica mundial, Maria Beatriz Carrusca adotou o tempo como aliado. Sem trabalho, a contadora e mãe de um menino de 7 anos se dedica a um curso de caligrafia artística para, em casa, fazer convites de casamento e complementar os ganhos do marido. “A crise chegou na minha casa ao mesmo tempo que os preços de tudo aumentaram, do gás à escola particular. A renda extra dará um fôlego”, diz. A professora dela, Kátia Xanchão, informa que esse tipo de profissional está em falta no mercado e, associando-se a gráficas, é possível tirar cerca de R$ 1,2 mil mensais.

Atividades manuais, como a encontrada por Maria Beatriz, são a alternativa de muitos brasileiros para driblar a falta de trabalho com carteira e a redução do poder de compra. O desempenho do emprego formal no Brasil no primeiro trimestre, quando o país perdeu 57.751 vagas, foi o pior dos últimos 10 anos. No mesmo período de 2008, houve geração líquida de 554.440 postos, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O desemprego leva a outros problemas. O número de brasileiros com as contas atrasadas está crescendo. Também no primeiro trimestre, a inadimplência dos consumidores cresceu 11,4% em comparação com o mesmo período de 2008, conforme a Serasa Experian.

Para fugir dessa bola de neve, o casal Willian e Márcia Diniz intensificou uma parceria que deu certo. A esposa, desempregada, teve a ideia de produzir doces, salgados e bolos para festas, pães e biscoitos caseiros. Não sabia, contudo, como faria para vender tudo isso. Aí entra o papel do marido. Ele trabalha 12 horas como agente de saúde no turno da noite de um hospital e folga 36 horas. No tempo livre, percorre a vizinhança para vender as delícias. “A Márcia levanta às quatro da manhã para fazer os pães. De nove a uma da tarde, eu entrego as encomendas e tento vender mais”, explica. “Tempo realmente é dinheiro. Sem essa renda extra, passaríamos aperto”, completa.

INVESTIMENTO BAIXO A crise econômica e as despesas de início de ano levaram as pessoas que não conseguem colocação no mercado de trabalho ou que querem complementar a renda a se qualificar. Essa é a avaliação da professora de modelagem e costura do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) Juliana Barbosa. “Muitas atividades têm investimento baixo e qualquer um pode fazer em casa. A maioria vem até aqui para aproveitar o tempo que tem para ganhar um dinheiro extra”, observa. É justamente o que faz Kátia Bragança. “Eu já fazia conserto de roupas em casa. Agora, estou me aperfeiçoando para vender moldes para empresas que confeccionam roupas. Tenho três filhos e meu marido não trabalha. Preciso sustentar a casa. Mais que nunca, tempo precisa ser dinheiro”, conta.

Segundo o economista Alcides Leite , da Trevisan Consultoria , a perda do poder aquisitivo se dá em função da escassez do crédito. “A força de compra da população está no pagamento a prazo”, explica. Por isso, a queda da renda leva a trabalhos informais. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou relatório este mês apontando que 51,1% da força de trabalho do Brasil está na informalidade. No mundo, são 60%, ou 1,8 bilhão de pessoas. De acordo com o documento, a crise deve aumentar esse número, atingindo dois terços da força de trabalho mundial até 2020.

O setor informal pode tirar mais trabalhadores da pobreza do que o formal, conforme o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP). Mais que isso, proporciona uma vida melhor que a de um assalariado.

A atividade realizada no tempo extra, por exemplo, se tornou a principal fonte de renda no caso de Irenilda Ângela Avelar. Durante os oito anos que trabalhou na área médica, principalmente como recepcionista e secretária, vendia produtos de beleza e acessórios por meio de revistas. Quando os gêmeos nasceram, há 14 anos, deixou o trabalho para ficar em casa, cuidando dos filhos. Hoje, além de produtos de catálogos, vende lingerie, enfeites de flores artificiais e naturais e blusas bordadas. Também aproveita datas comemorativas. “Na Páscoa, fiz e vendi ovos de chocolate. É dessa forma que consigo dinheiro para comprar roupas, passear, presentear”, diz. É o velho e famoso jeitinho brasileiro – dessa vez, usado para vencer a crise.

 

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