Microempresário: como não perder dinheiro com a crise

Fernanda Zandonadi

fzandonadi@redegazeta.com.br

 

Em um jogo em que todos perdem, a crise começou em grandes corporações e hoje pode ser sentida também pelos pequenos empreendedores, despreparados para enfrentar períodos de turbulência.

Geralmente, o que sobra nas grandes empresas (controle de caixa absoluto e informações claras de como é possível cortar gastos) falta nas pequenas: nelas, não há um planejamento estratégico e um caixa fortalecido.

"Se o empresário não conhece a própria empresa, não sabe o volume de despesas, receitas, contas a pagar, margem de lucro, não é possível sequer saber se está operando ou não no vermelho e onde está o erro. Se ele olha para o concorrente e põe preço na mercadoria, ele pode estar trabalhando com um preço de venda que levará a empresa para o buraco", analisa a gerente da Unidade de Tecnologia, Educação e Acesso ao Crédito (UTE) do Sebrae, Daniela Negri,

Com a mesma opinião, o diretor de operações da Trevisan Consultoria , Edison Cunha, avalia que a maior parte dos problemas das microempresas está ligada ao caixa e aos custos: elas têm que fixar os custos, não apenas os financeiros, mas também da produção.

"Sempre existe negligência nesses aspectos, pois as empresas não têm caracterizado os custos. Uma segunda questão é o produto que é vendido sem o levantamento dos valores envolvidos, ou seja, saber o preço de venda, o preço da produção e a margem de lucro".

Esse fator antecipa até mesmo o problema de caixa, segundo Cunha, principalmente em momentos de crise, quando as empresas têm dificuldades em conseguir crédito e financiamento.

A solução não é tão simples, acrescenta. É preciso negociar com os bancos que realmente mantêm a carteira, vincular as duplicatas e buscar um acordo um pouco mais favorável.

"Além disso, as empresas têm que tomar cuidado com mercado, planejamento, custos, melhorar margens dos produtos. Não há muito segredo. Se tudo isso for respeitado, é possível chegar aonde se quer".


Parceria

O entendimento entre pequenos e grandes empresários também pode ser um bom remédio contra a queda nas vendas. Um exemplo é o programa Inove, da mineradora Vale, que busca fortalecer o relacionamento da empresa com pequenos e médios fornecedores regionais, por meio de capacitação, disponibilização de linhas de crédito e incentivos.

O Inove conta com a participação de diferentes áreas da empresa e é realizado em parceria com entidades de classe, órgãos de governo, instituições financeiras e de educação.


Afinal, capacitação gerencial e planejamento são pontos chaves para o sucesso ou fracasso de qualquer empresa, segundo o diretor de operações da Trevisan Consultoria , Edison Cunha.


Durante a crise, estratégia para reduzir custos

Clara Nunes Soprani trabalha, ao lado da sócia Mara Barcelos, com visão estratégica de mercado. A crise não foi obstáculo para as empresárias, que venderam uma loja na Praia do Canto e investiram em outra, no Shopping Praia da Costa, em Vila Velha. As proprietárias da Pipocando têm algumas estratégias. "Não temos gerente, somos polivalentes, e nosso quadro de funcionários, enxuto", diz Mara. Quando houve queda nas vendas, elas decidiram fazer retiradas menores e investir em produtos. Há ainda o cuidado manter o bom relacionamento com fornecedores, o que rende bons prazos nos pagamentos das mercadorias.


Em seis meses, 1,9 mil empresas foram extintas

Entre os meses de setembro de 2008 até fevereiro de 2009, 1.943 empresas foram extintas no Estado. No mesmo período entre 2007 e 2008, foram 1.687 extinções. O aumento de empresas que fecharam se assemelha à alta registrada nos demais anos da série histórica da Junta Comercial do Espírito Santo (Jucees), que começou em 2000. Em contrapartida, o número de constituições, ou seja, de empresas que foram abertas nesses cinco meses, diminuiu entre um período e outro, e passou de 5.714 (2007 e 2008) para 5.511 (2008 e 2009). Desde o ano 2000, essa é a primeira vez que o número de constituições é menor do que no período antecedente.



Análise

Controle do crédito

Daniela Negri , Gerente do Sebrae-ES

No caso de bancos parceiros do Sebrae-ES, como Banco do Brasil, Banestes, Bandes, Sicoob, Caixa Econômica Federal e Banco do Nordeste, há crédito no mercado. Dados mostram que, apesar de os últimos dois meses de 2008 terem sido de crise, o crédito concedido no 2º semestre do ano passado aumentou 44% em relação ao primeiro semestre. Minha recomendação é planejamento para a pequena empresa que quer crédito. Se a necessidade é por empréstimos para investimento fixo, é preciso prever esse custo dentro do fluxo de caixa. Se é para capital de giro, é preciso dimensionar a quantidade efetiva de dinheiro necessário. Isso se resume em atualizar os controles financeiros.

 

21 dicas para sair ganhando

Com ou sem crise, faça a diferença ao abrir um novo negócio

 

1. Vender é prioridade. Procure alternativas para atrair novos clientes e fidelizar os já existentes. Procure inovar.

2. Tenha absoluto controle sobre suas despesas e receitas.

3. Atenção aos custos fixos. Localize e corte todas as despesas desnecessárias. Faça uma planilha de custos e observe para onde vão os gastos.

4. Converse com seus funcionários e peça sugestões para diminuir despesas.

5. Olho no estoque, veja se ele não cresce com produtos encalhados, que significam dinheiro parado.

6. Analise o potencial de venda de seus produtos e aposte nos que possuem maior índice de vendas e boa rentabilidade.

7. Tente negociar maior prazo de pagamento com seus fornecedores de forma a receber suas vendas antes de ter de pagar pelos produtos.

8. Evite contrair dívidas, principalmente em moeda estrangeira. Há muita oscilação no mercado

9. Não dependa nunca de apenas um ou dois grandes clientes.

10. Nunca faça um investimento sem antes obter o máximo de informações, analisar o potencial do mercado consumidor, o nível de vendas para o retorno e o capital de giro necessário para manter o negócio até que ele comece a dar retorno.

11. Evite demitir funcionários. Só o faça se for muito necessário. Você vai precisar de funcionários treinados para enfrentar eventuais dificuldades.

12. Procure ganhar produtividade e competitividade, verifique seus preços, margens, custos fixos, processos produtivos. Veja se há algo a ser melhorado.

13. Mantenha-se informado sobre os desdobramentos da crise, procure entender como ela deve impactar em seus principais clientes.

14. Atenção às medidas anunciadas pelo governo. Tente entender como elas impactarão no seu negócio. Participe das reuniões em sua entidade empresarial para entender o que acontece com seu setor de atuação.

15. Fique atento às novas oportunidades, elas sempre surgem em momentos de crises feias como esta.

16. Esteja sempre aberto às mudanças, seja de produtos, processos internos e mercados.

17. Procure melhorar seus conhecimentos de gestão. Quem administra melhor enfrenta menos dificuldades nos

momentos difíceis.

18. Em tempos de crise, é importante conhecer os benefícios legais e as oportunidades que a Lei Geral oferece às pequenas empresas.

19. As sociedades cooperativas podem obter o mesmo tratamento diferenciado das microempresas e empresas de pequeno porte, à exceção do tópico tributário.

20. Realizar um plano de negócio e buscar análises de investimento ajuda nas decisões e minimiza riscos.

21. O financiamento de empresas em processo de implantação não é fácil. A análise ocorre caso a caso e depende de alguns critérios estabelecidos, como o bom histórico de relacionamento do cliente com o banco, apresentação de um bom projeto de viabilidade econômico-financeira, uma parcela de capital próprio, garantias, experiência gerencial e no ramo de atividade. Portanto, é preciso planejamento financeiro para driblar esse estágio.

 

Caso a caso

1. Se suas vendas focam o mercado interno

O que fazer. É essencial controlar despesas e receitas. Atenção aos custos fixos. O esforço de venda deve ser redobrado.

 

2. Se suas vendas são voltadas para grandes empresas

O que fazer. É importante obter o máximo de informações os setores de atuação das grandes empresas para as quais são feitas vendas, para não ser pego de surpresa com uma queda brusca de vendas. O micro empresário deve procurar diversificar ao máximo os clientes, evitar depender de apenas um ou dois grandes clientes.

 

3. Se você precisa de crédito para financiar venda

O que fazer. Uma alternativa é negociar melhores condições de pagamento com os fornecedores e repassar essas vantagens para os clientes. O empreendedor deve procurar reduzir as despesas para que, alguma eventual queda no faturamento, não provoque grandes problemas de caixa.

4. Se você precisa de crédito para capital de giro

O que fazer. Os bancos vão ficar mais criteriosos para liberar crédito. É fundamental mostrar aos agentes financeiros que tem total controle sobre as contas da empresa, despesas, vendas e lucros. É necessário mostrar a viabilidade econômica do empreendimento, que a empresa está sob controle e o empreendedor é "um bom pagador", apresentando boa capacidade de quitação de seus débitos.

Fonte: "Manual: como agir na crise", do Sebrae/MG

 

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