Ele voltou

Crédito para consumidor, que sumiu no começo da crise, começa a dar as caras nas vendas do varejo, com prazo maior

Vou pedir o abatimento sobre o preço anunciado e negociar uma redução a mais pelo pagamento à vista - Maria Raquel Cunha,

Depois de seis meses de restrições, o crédito começa a retornar ao mercado e os consumidores que adiaram compras já estão sendo convidados a retornar à festa do consumo. As medidas adotadas pelo governo federal para irrigar a economia, como a injeção de recursos em bancos e a baixa dos juros e impostos, chegaram ao bolso da população. Em determinados setores, a tentação é grande. Além da economia com a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), é possível dividir a compra de eletrodomésticos em 10, 12 e até 15 vezes sem juros. Carros voltaram a ser vendidos em 72 parcelas, condição praticada antes do agravamento da crise financeira mundial e que agora está de volta ao varejo.

“Já há claros sinais de melhora do crédito e do impacto da redução dos juros”, afirma o economista Alcides Leite , da Trevisan Consultoria . O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), desde o agravamento da crise, no fim do ano passado, reduziu a taxa básica de juros (Selic) em 2,5 pontos percentuais, de 13,75% para 11,25%. Ainda segundo o BC, a concessão de crédito pessoal passou de R$ 137,4 bilhões em setembro para R$ 147,5 bilhões em fevereiro, alta de 7,4%.

“Apesar de os bancos continuarem seletivos e restritivos, o volume está maior. Tanto é que mais de 40% dos comerciantes da capital preveem crescimento das vendas no Dia das Mães. Como 84% dos negócios se dão por meio de financiamento, sobretudo do cartão, é prova de que o crédito irriga a economia”, diz o consultor da Federação do Comércio de Minas Gerais (Fecomércio Minas) Silvio Abreu.

Os setores mais otimistas, e que dilataram o prazo de pagamento e baixaram taxas, são aqueles beneficiados pela redução do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI). “O número de operações aprovadas aumentou. O mercado oferta parcelamento em até 72 vezes, mas a média das contratações ainda gira em torno de 48 meses”, observa o presidente do Sindicato das Concessionárias e Distribuidores de Veículos de Minas Gerais (Sincodiv-MG), Mauro Pinto de Moraes Filho. “O mercado está voltando a se restabelecer com a queda do IPI. Percebemos que o maior problema da crise era o da confiança. Estimamos, agora, vendas pelo menos 15% maiores”, afirma o presidente da Associação dos Comerciantes de Material de Construção de Minas Gerais (Acomac-MG), Ricardo Caus.

No caso das redes de eletrodomésticos, desde o fim do ano passado os parcelamentos a longo prazo estavam sujeitos a incidência de juros médios de 3% a 4% ao mês, taxas que agora estão fora da negociação. A guerra de ofertas e os prazos dilatados são fortes apostas para convencer o consumidor. Os descontos, em média de 8% a 13%, referentes à redução do IPI de fogões, geladeiras, máquinas de lavar e tanquinhos, são calculados sobre o preço de tabela do produto – mas, no momento da negociação, o abatimento pode superar 20%, já que varejistas estão concedendo a redução sobre o valor anunciado da promoção. Um exemplo é a lavadora para 20 quilos, com preço original de R$ 1,5 mil, comercializada na oferta por R$ 1,36 mil. O desconto do IPI soma ao produto uma redução de aproximadamente 20%. O eletrodoméstico sai por R$ 1,2 mil à vista ou parcelado em 10 vezes sem juros.

SINAL VERDE As principais redes de eletrodomésticos dão sinal verde ao crédito e anunciam parcelamentos, com prazos superiores a um ano, tanto em cartões de bandeira própria quanto nos cartões do mercado. A estratégia surtiu efeito. No primeiro fim de semana com a nova medida, as vendas cresceram 20%, tomando por base a média de quatro grandes varejistas – Magazine Luiza, Ricardo Eletro, Wal-Mart e Pão de Açúcar.

Há um mês, a fisioterapeuta Maria Raquel Cunha está pesquisando o preço de uma lavadora. Ela acredita que, enfim, chegou o momento certo para comprar e aposta que terá mais que o simples desconto do imposto. “Vou pedir o abatimento sobre o preço anunciado como promoção e ainda negociar uma redução a mais pelo pagamento à vista.” Segundo a consumidora, a medida do governo e as negociações mais flexíveis com o comércio são decisivas para a tomada de atitude do consumidor.

Ontem, o governo estendeu a redução da alíquota do IPI de 20% para 10% também para as máquinas de lavar roupa de até 20 quilos. O IPI sobre geladeiras, que atualmente é de 15%, caiu para 5%. Para máquinas de lavar, a redução foi de 20% para 10% e, para os tanquinhos, o desconto caiu de 10% para zero. Os fogões, que tinham IPI de 5%, também tiveram a alíquota reduzida a zero. Com a medida, o segmento estima um aumento de até 30% nas vendas.

 

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